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CONTADOR DE HISTÓRIAS E HISTORIETAS E PETAS E TRETAS DE ENTRETER INSÓNIAS A GRANEL OU POR ATACADO

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

CRÓNICA LIGEIRA DE UM PAR DE BINÓCULOS EM FUNÇÕES DE ESPREITA TIDA POR ÊNFASE

O carro, vermelho, fazendo correr atrás dele uma longilínea nuvem de pó, parou a meio da subida. A sombra da mata, sem quase ser preciso entranhá-la, a tanto convidava quem ainda por cima se revelasse com alguma pressa, fosse nos gestos de autómato com corda a mais, fosse nos olhos de periscópio sem sossego acima das ondas, fosse nos risos desconexos da causa que os fizesse desprender. Este lugar, isolado na serra e afinal por ambos conhecido desde há anos, não fora escolhido ao acaso. Eles sabiam que ali disporiam de condições para dar ensejo prático àquele projecto de meses. E a temperatura do ar, atendendo à época do ano e à altitude, nem poderia estar melhor. Dentro da mata, bem se vê, sem entrar muito, e distante de olhos caninos.
Mas é claro que ainda estenderam a toalha na mesa do chão, mista de musgo, relva, gravetos, folhagem seca. E sobre ela ainda despejaram a ferramenta e os ingredientes comestíveis de pressupor num qualquer bosquejo de piquenique. E chegariam mesmo a mordiscar um pedaço de nada e a beberricar umas gotas de coisa nenhuma. A sede e a fome que os roíam, porém, eram bem outras, e havia que sem mais demora e à medida consentânea lhes dar sustento ou vazão.
Como era de seu ofício, de binóculos assestados, no poleiro da torre de vigia, o guarda florestal viu o filme todo. Começou por estranhar a presença do carro, àquela hora, em dia da semana, e acompanhou-lhe o risco de poeira serra acima, desde o sopé até à meia encosta, onde a tácita condescendência de um castanheiro com idade insofismável de séculos, dono do espaço coberto de ouriços, o fizera acomodar. E não deu a menor importância nem crença alguma ao velho subterfúgio da toalha, de imediato estendida na relva, e bem assim aos acepipes nela também logo alijados como carrego em demasia.
Cena a cena, gesto a gesto, tão longe e tão perto que lhes podia contar os impulsos e quase os ouvia arfar, gemer, gritar, o guarda levou para casa, na ardência dos olhos, ao fim do turno, a plena convicção de que nessa noite, e nas demais noites e manhãs e tardes de folga que se lhe seguissem, a mulher, ainda nova bastante, ainda prendada e graciosa, o não reconheceria. E se ele um dia até a trouxesse àquele lugar, junto ao castanheiro ancião, a fazer um piquenique? Nada lhe contaria, isso não, do que lhe fora dado espreitar pelos binóculos, ou arriscar-se-ia a desencorajar, por parte da amantíssima esposa, a justa e ambicionada equivalência ao empenho a pôr ao léu e a manter ao de cima, impante e fero, inquebrantável, pela noite adentro.
Confuso veio a ficar o psicólogo, que ela consultava com regularidade, por não encontrar explicação para a recorrência do sonho em que um automóvel vermelho a transportava, serra acima, desde o sopé até ao meio da vertente, enquanto ia levantando atrás dele uma nuvem com a inequívoca forma de um falo em gradual crescimento e a engrossar, embora só de poeira.