PAISAGEM PROTEGIDA ANTES QUE A MENTE A DANIFIQUE OU PERVERTA
O rio, ali, passa gordo e manso. Cobra saciada, quase imóvel, no meio de salgueiros choramingões ou não, choupos descabelados por já não servirem sequer de mote fácil ao dispor de poetas suicidas, amoreiras alheias à faina das lagartas tecedeiras de que foram nutrimento e rota obrigatória através dos desertos orientais, acácias injuriadas como de raízes devastadoras da vizinhança por sofreguidão sem limite, alguns eucaliptos de avós nos antípodas cuja fama se compara à das acácias, canaviais autóctones de prolixa multiplicação e bambus de longínqua génese transladada pelas caravelas, muito lúpulo nunca aproveitado a preceito e por aí armadilhado pela maldição das silvas. E tudo isto em ambas as margens, no cumprimento do papel de guardas fronteiriços sem grande empenho na vigilância, dificultando ainda assim o acesso aos pomares de laranjeiras, a quem do rio em seu tempo lhes namore o ouro, ou o mergulho menos cuidadoso nos averdungados fundões, a quem de terra se lhes atire e intente superar a nado.
Mais credível é ir de barco, e aqui, nesta versão minúscula de enseada quase natural, fora da água, estão dois. Dois pequenos botes, voltados de borco e presos por correntes e cadeados ao arvoredo, talvez dos só utilizados de noite em pescarias furtivas. Não seria difícil ultrapassar, se de inevitável merecesse o cunho, o estorvo dos embudes. Qualquer bom alicate, qualquer martelo, qualquer pedregulho, revolveriam em segundos a dificuldade e poriam os barcos na água. Quanto ao que os movimentaria, na ausência de remos ou vela, só à vara. É capaz de ser para isso que por aí há tanta abastança de bambus. E se por azar vier o dono cedo de mais, aquando do desembarque, recomenda-se que o cujo aconteça na margem oposta. A ponte nem fica longe daqui, a uns quinhentos metros a jusante. Ou então use-se a vara. Não se dê azo à desvergonha da pesca clandestina nos rios, começando pela que neste mal dissimulado ancoradouro, noite alta, se subentende. Se se catasse o matagal entre os caniços da berma, descobrir-se-iam restos da rede utilizada, cordas e demais estratagemas da pilhagem piscícola fora de horas, pois então. Portanto, combata-se a problemática atinente a tais excessos que só a amplidão da noite vivifica.
Mais credível é ir de barco, e aqui, nesta versão minúscula de enseada quase natural, fora da água, estão dois. Dois pequenos botes, voltados de borco e presos por correntes e cadeados ao arvoredo, talvez dos só utilizados de noite em pescarias furtivas. Não seria difícil ultrapassar, se de inevitável merecesse o cunho, o estorvo dos embudes. Qualquer bom alicate, qualquer martelo, qualquer pedregulho, revolveriam em segundos a dificuldade e poriam os barcos na água. Quanto ao que os movimentaria, na ausência de remos ou vela, só à vara. É capaz de ser para isso que por aí há tanta abastança de bambus. E se por azar vier o dono cedo de mais, aquando do desembarque, recomenda-se que o cujo aconteça na margem oposta. A ponte nem fica longe daqui, a uns quinhentos metros a jusante. Ou então use-se a vara. Não se dê azo à desvergonha da pesca clandestina nos rios, começando pela que neste mal dissimulado ancoradouro, noite alta, se subentende. Se se catasse o matagal entre os caniços da berma, descobrir-se-iam restos da rede utilizada, cordas e demais estratagemas da pilhagem piscícola fora de horas, pois então. Portanto, combata-se a problemática atinente a tais excessos que só a amplidão da noite vivifica.
O corpo apareceu a boiar ao fim de uma semana. A mansidão da água não o quis apartar muito do ponto onde se terá despenhado. Ou onde alguém o fez despenhar —, zunem alguns. Apesar do avançado estado de decomposição, não apresentava convincentes indícios de violência anterior à probabilidade da causa de morte por afogamento, o que só com a requerida autópsia e os exames periciais em decurso se saberá esclarecido —, consta no primeiro relatório exarado pela polícia, nem hora e meia depois do achado (dito macabro, por uns, e rocambolesco, por outros). Achado esse que sob todas as perspectivas se crê obra do acaso, embora sempre sujeito a exaustiva investigação para completo apuramento da verdade.
Pensa-se que a vítima teria surpreendido o seu carrasco, ou carrascos, quando eles, ou ele, acabado o passeio fluvial ao lado de lá dos limites do abuso, porque sem a necessária autorização dada pelo dono e com destruição à pedrada do correspondente aloquete, voltavam já a terra firme num dos dois botes até aí guardados, fora da água, em decúbito ventral e em cais privativo, acorrentados a qualquer tronco. Quem os prognosticaria expostos à sanha, por agora impune, de algum noitibó sem paternidade assente em registo oficial? Quem os desejaria assim, resumidos a um, uma vez que um deles jaz no fundo do rio, em frente desta amostra de angra quase natural, de casco esburacado à facada e carregado de penedos para por lá se manter agarrado ao lodo?
Hoje, já com alguns anos de águas passadas sobre essa noite maligna, vê-se ali um memorial encimado por um cruzeiro de pedra, de molde aparentado ao dos padrões das descobertas de terras de outrem, onde alguém, de quando em quando, deixa flores. Mas a pescaria, nocturna e forjada com artes proibidas por lei, ainda não acabou. Nem tão cedo acabará, enquanto houver pescadores a contar histórias e contadores de histórias a pescar. Quais mentem mais?
Pensa-se que a vítima teria surpreendido o seu carrasco, ou carrascos, quando eles, ou ele, acabado o passeio fluvial ao lado de lá dos limites do abuso, porque sem a necessária autorização dada pelo dono e com destruição à pedrada do correspondente aloquete, voltavam já a terra firme num dos dois botes até aí guardados, fora da água, em decúbito ventral e em cais privativo, acorrentados a qualquer tronco. Quem os prognosticaria expostos à sanha, por agora impune, de algum noitibó sem paternidade assente em registo oficial? Quem os desejaria assim, resumidos a um, uma vez que um deles jaz no fundo do rio, em frente desta amostra de angra quase natural, de casco esburacado à facada e carregado de penedos para por lá se manter agarrado ao lodo?
Hoje, já com alguns anos de águas passadas sobre essa noite maligna, vê-se ali um memorial encimado por um cruzeiro de pedra, de molde aparentado ao dos padrões das descobertas de terras de outrem, onde alguém, de quando em quando, deixa flores. Mas a pescaria, nocturna e forjada com artes proibidas por lei, ainda não acabou. Nem tão cedo acabará, enquanto houver pescadores a contar histórias e contadores de histórias a pescar. Quais mentem mais?
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