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CONTADOR DE HISTÓRIAS E HISTORIETAS E PETAS E TRETAS DE ENTRETER INSÓNIAS A GRANEL OU POR ATACADO

domingo, 22 de outubro de 2006

ALPINISMO MENTAL EM RECORRÊNCIA AQUÉM DO LIMIAR DA FRAQUEZA

O velho apercebeu-se de que lá em casa não tinha muito com que compusesse o jantar. E por reflexo instintivo, quem sabe, pareceu-lhe sentir uma fome de vários dias a eito sem sequer abrir a boca. Levantou-se então, com algum rangido de ossos a vir ao de cima, do cadeirão de balouço, junto à lareira onde nenhum fogo se fazia ouvir, espreguiçou-se a toda a extensão dos braços e desceu ao quintal.
Encaminhou-se para o estábulo, deitou uns molhos de palha fresca nas manjedouras, e espalhou ainda algumas braçadas de mato na cama dos animais. Ao sair, como se o percorresse um específico pensamento, fez questão de abrir e deixar bem abertas todas as cancelas.
Acercou-se a seguir, sem mostrar grande pressa, da zona dos coelhos e das capoeiras, acrescentou uns punhados de milho e alguma erva, esvaziou e reencheu os bebedouros com água limpa, e procurou ainda, sem êxito, por ovos de postura fora de horas. E tal como no estábulo, experimentou as taramelas e deixou-as ao pendurão, assim escancarando as portinholas de todos aqueles inquilinos, galinhas e coelhos.
“Para que voem, saltem, corram, vão à vida, quando bem lhes apetecer”–, pensou alto em voz baixa.
Ainda se abeirou do poço, atirou-lhe uma pedra, e desandou dali, sem rumo determinado, como se um repentino assomo de sonambulismo lhe empurrasse os passos ao deus-dará da escuridão, qual nuvem inversa, em volta dele.
Atravessou de ponta a ponta a povoação, sem vivalma àquela hora, e começou a subir a montanha, em direcção ao mirante que lá no ponto mais alto, mesmo de dia, mal se vislumbra cá de baixo, da planura tão rastejante como quem nela se detém e mantém uma vida inteira. Seguirá ele tão abstraído em suas cogitações, circulares ou rômbicas, que passe pelo miradouro e nem dele se aperceba?
O mirante é uma espécie de rochedo robusto, achatado e sem a previdência de gradeamento delimitador, a lembrar o susto dos terraços de altos prédios em construção acelerada, com o argumento de uma panorâmica inimaginável, em frente, e um abismo de centenas de metros na vertical. E a complementar o simbolismo da tela, um outro penedo, também grande mas não tanto como o de demonstrar vertigens temporãs, fálico e erecto, que nem dedo apontado à surdez celestial. Com ele se assinala o cume de maior altitude por ali.
Houve em tempos quem se lembrasse de ir registando nesta pedra, com a gravação de cruzes feita a escopro e marreta, o número exacto de quantos por ali terão passado como se um repentino ataque de sonambulismo lhes levasse os passos ao deus-dará da escuridão, qual nuvem inversa, à sua volta.
Quem lá for agora, ao miradouro, verá que o menir tem mais uma cruz que as contáveis quando esta história começou.