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CONTADOR DE HISTÓRIAS E HISTORIETAS E PETAS E TRETAS DE ENTRETER INSÓNIAS A GRANEL OU POR ATACADO

quarta-feira, 26 de julho de 2006

VIAGEM A FUMAR DA TERRA AO CÉU EM VAGÃO DE NÃO FUMADORES

Pegou na pasta e na maleta de viagem e dirigiu-se à bilheteira. Depois de já ter o bilhete pretendido, foi até ao bar da estação tomar o último café antes do embarque. Aqueles crónicos cinco minutos de atraso do comboio sempre haveriam de servir para alguma coisa. Neste caso, a satisfação do velho vício chamado cafeína, quase sempre de parceria com o outro, o da nicotina, de cigarro à dependura de lábios gretados como vulvas em fim de rota possível, ou de cachimbo balanceado pela presunção, como no caso em pose, também dependente de lábios mais dúbios que vulvas sem descanso semanal nem sindicato.
Já reconfortado, rumou ao cais onde dentro em breve, e já lá iam dez minutos, deveria chegar o foguete que o levaria, ninguém sabia para onde. Nem até quando. Ou sequer se pensaria regressar ou não.
Sentado num daqueles bancos corridos, na gare, onde toda a gente se senta sem pedir licença, tirou um livro da pasta e procurou disfarçar com ele a crescente irritação que sentia. Nunca nele se reconhecera a raríssima virtude de saber esperar. E o atraso, sempre mais lesto que o maquinista faltoso, atingia já a estranheza dos vinte e um minutos, sem que nos altifalantes ressoasse a menor explicação.
Reacendeu o cachimbo, restituiu o livro à pasta, levantou-se do banco e deu uns passos sem nexo, atordoado. Olhou o relógio de pulso e quis confrontá-lo com o da estação, que de tão longe nem se lia, chegando mesmo assim à resmoneada conclusão de que tanto um como o outro lhe acenariam um atraso de trinta e cinco minutos.
“Filhos da puta”―, gritou-se entre os dentes, enquanto verificava que alguém se sentara no lugar dele, o único disponível em todo o banco, ocupado que estava por fulanos indefiníveis e tropas, fazendo alarido como se o resto da vida se reduzisse àquele fim de semana. Agarrou a mala e a pasta com olhos armados de lança-chamas, decidindo então ir pedir contas à bilheteira, ou ao chefe de estação, pelo escândalo do atraso de quase uma hora em relação ao horário afixado.
“Provavelmente, o senhor ter-se-á esquecido de atrasar o seu relógio uma hora”―responde-lhe com finura e paciência o funcionário, lá por detrás dos óculos―, “como está acordado que se faça, em determinada data, algum tempo depois do equinócio de Setembro”.
Sentiu-se desfalecer, de tão irado. Mas conteve-se. De facto, confirma agora, de perto, o relógio da estação marca uma hora menos do que o que lhe rói o pulso. O melhor a fazer é serenar as ideias, tirar partido da confusão para tomar outro café, preparar uma nova cachimbada e regressar ao cais de partida, onde a algazarra de fardas e não fardas, no banco e fora dele, continuará. E, antes de tudo, não se esquecer de acertar o relógio pela hora actual.
Ao atravessar a linha, ainda desaustinado pela estupidez da cena que fizera, apareceu do nada uma composição de mercadorias, carregada de carvão, que o levou à frente, com cachimbo e tudo. Os altifalantes tinham informado, minutos antes, da iminência da sua passagem por aquela estação, sem paragem.
Mas o bilhete dele era do foguete.