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CONTADOR DE HISTÓRIAS E HISTORIETAS E PETAS E TRETAS DE ENTRETER INSÓNIAS A GRANEL OU POR ATACADO

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

QUADRO CÍNICO EM QUE O LONGEVO É NOTÍCIA E BATE FUNDO

Tão longa era a estrada e a pressa de andar era tanta, que até a sombra de um sol mal parido e a dar-lhe por trás se deixava pisar. Para onde e em busca de quê iria ela a tais horas? E até onde sobreviveria àquela marcha de soldado em fuga através do pânico inimigo? Alguém já dela saberia, lá mais adiante, e a aguardaria na berma de enfim descansar um pouco? Ou só novas encruzilhadas sem nome e sem olhos a fariam persistir neste ritmo alucinado e condenado ao soçobro, mal caísse no desvão abismal de mais uma frustração, logo após o primeiro tropeço na talvez última pedra?
E o peso da mala atulhada a esmo? E a carga ainda maior da incerteza relativa aos recônditos propósitos invocados como propulsores da fuga? E o aguilhão da ira acumulada ao longo de tantos anos hesitantes? E o freio ronceiro ainda a puxar à nostalgia da lembrança de quanto de bom teve ensejo e se fez usufruir? E o pavor da inexistência de alternativas quaisquer, varrido que foi o gozo do que era novo e apetecia?
E se pedisse boleia? E se alguém a visse e parasse e a levasse depressa para longe daqui, fosse qual fosse o destino final, e se possível sem lhe fazer muitas perguntas?
“O que é que pode levar uma senhora da sua idade a vir para a borda da estrada e a pôr-se à boleia?”
Vieram a encontrá-lo, já putrefacto, um mês depois, lançado para o lixo de uma ribanceira. Do carro nunca mais se soube. Nem dela.